Quando o 7 de Setembro vira palanque: política tomou espaço de uma celebração que deveria ser de todos

O 7 de Setembro deveria ser um daqueles raros momentos capazes de reunir brasileiros de diferentes ideias em torno de algo maior do que a própria política: o Brasil.

Em Guarapuava, porém, quem acompanhou o desfile cívico-militar deste ano viu uma cena que merece reflexão.

Ao longo do percurso, grupos políticos se distribuíram entre o público, exibindo bandeiras, identificações e realizando a entrega de materiais de natureza política. A estratégia pode até encontrar respaldo dentro das regras eleitorais, dependendo da forma como foi realizada. Mas a pergunta que fica é outra: precisamos transformar todos os espaços públicos em espaço de disputa política?

O desfile de 7 de Setembro não é um comício. Não é uma convenção partidária. Não é uma caminhada eleitoral.

É uma celebração cívica.

É o momento em que famílias saem de casa, crianças acompanham o desfile, escolas participam, forças de segurança marcham e diferentes instituições da sociedade ocupam a mesma rua para celebrar a Independência do Brasil.

E talvez seja justamente por isso que a cena tenha causado tanto incômodo.

Não se trata de dizer que política não pode existir no espaço público. Ela pode — e deve. O debate político é parte fundamental de uma democracia.

Mas democracia também pressupõe reconhecer que nem todo espaço precisa ser transformado em palanque.

Quando um evento tradicionalmente cívico passa a ser utilizado como oportunidade para exposição partidária e distribuição de material eleitoral, existe uma linha tênue entre exercer legitimamente uma atividade política e simplesmente não respeitar o caráter daquele momento.

Legalidade e bom senso não são necessariamente a mesma coisa.

Pode ser permitido. Pode estar dentro das regras. Mas isso não significa que seja bonito, apropriado ou moralmente saudável para a vida pública.

O cidadão que foi ao desfile para ver o filho marchar, acompanhar uma escola, prestigiar as forças de segurança ou simplesmente celebrar o seu país não necessariamente foi ao local para receber propaganda eleitoral.

E existe algo simbólico nisso.

Se até o Dia da Independência precisa virar território de disputa eleitoral, talvez estejamos politizando espaços que deveriam nos lembrar justamente daquilo que temos em comum.

Guarapuava pode — e deve — ter debate político intenso. Candidatos podem apresentar suas ideias, pedir votos e disputar legitimamente a preferência dos eleitores.

Mas talvez possamos preservar algumas coisas.

O desfile é uma delas.

Porque, antes de sermos eleitores de esquerda ou de direita, apoiadores deste ou daquele candidato, somos brasileiros.

E o 7 de Setembro deveria lembrar exatamente disso.